Á PROCURA DO JARDIM DESAPARECIDO
Todos os jardins têm uma alma secreta, tecida a partir dos sonhos das crianças que neles brincaram. Crianças e jardins deviam ser inseparáveis porque só as crianças veem os tesouros, as flores mais baixas, as pedrinhas que brilham no chão, um pauzinho de gelado esquecido. Só as crianças podem colher flores e pisar a relva, quando ainda não sabem ler “é proibido”.
Para as crianças, dar pão aos patos, pode ser uma das coisas mais importantes do dia. Ao sábado e ao domingo, acordam, muitas vezes, a dizer: “- é hoje que vamos dar pão aos patos?”.
Imagem retirada daqui: http://opirolitodoseixal.blogspot.com/
As crianças podem não saber o que é ecologicamente certo mas, sabem viver no jardim, como se fossem árvores ou flores com pernas. Pertencem ao jardim.
Os baloiços conhecem-nas e segredam-lhes coisas que só elas ouvem. Ás vezes o que parece a chiadeira dos ferros de um baloiço, é apenas um pedido:
“-Não te vás embora, fica mais um bocadinho, não ligues aos que te estão a chamar.”
E o lago dos patos, mesmo ali ao lado, e a ponte que o atravessa com um repuxo que faz sempre sede, pode ser um lugar tão especial que dura intacto na memória, mais de cinquenta anos.
Eu conheci um jardim assim.
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Com árvores frondosas, bancos com namorados, canteiros desenhados por sebes de buxo, e gente da terra que parecia morar ali. Havia bancos que tinham dono, podia quase jurar, porque via neles quase sempre as mesmas caras.
E o jardim estava ali ao pé do rio, e os patos iam e vinham conforme lhes apetecia, e as crianças descobriam sempre uma coisa nova.
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Era possível brincar às escondidas, porque o jardim tinha recantos e esconderijos e sombras e lugares secretos que nenhum adulto conhecia, mas que cada criança tinha assinalado num mapa secreto da memória.
Voltei a esse lugar na esperança de ver meninos dar pão aos patos, mas essa parte do jardim e do lago tinha desaparecido.
As flores, a ponte, o repuxo, tinham desaparecido. Os caminhos de luzes sombras e esconderijos tinham desaparecido.
No seu lugar um caminho cor de terra vermelha, a lembrar deserto.
Vestígios do passado ficaram por ali ao acaso, ao acaso não, integrados numa coisa que parece que se chama “requalificação”, mas que deixou de ser jardim.
Quem requalifica, talvez nunca tenha ali brincado às escondidas, dado pão aos patos, ou entendido a linguagem dum baloiço.
Porque o lago, os patos, as sebes de buxo, os caminhos misteriosos, os bancos com dono, não tiveram direito a requalificação.
Foram todos levados para uma “terra do sempre” onde, só quem um dia ali foi criança, poderá “sempre” visitar.
E vocês podem visitar esse jardim desaparecido do Seixal? A senha é ter ali brincado, ter dado pão aos patos e ter percebido a linguagem dos baloiços.
Não me venham com conversas que isto é poesia. Isto é memória, história, património afectivo.
Eu, nos últimos dias, tenho lá ido muitas vezes….E vocês?
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