A QUINTA DO ALGARVE, história e histórias
Do Seixal à quinta do Algarve com paragem curta pelas outras quintas.
Quem vai do Seixal para Paio Pires, passando pelo Bairro Novo, encontra pelo caminho várias quintas.
A primeira, agora chamada D. Maria, passou de fábrica de cortiça Wicander e zona campestre , a bairro de moradias e prédios altos, onde o que resta desses tempos é uma solitária chaminé.
Olhares.com
A antiga Wicander fica paredes meias com uma outra quinta, a da Trindade, agora empreendimento conhecido por “do Benfica”.
Uma zona “in” o que quer que isso seja, com prédios grandes e jardins não tão grandes, alguns com piscina, onde há apartamentos à venda, por muitos mil euros porque têm vista de rio.
https://www.olx.pt/anuncio/t2-com-terrao-e-vista-rio-para-lisboa-na-quinta-da-trindade-seixal-IDC2uXB.html
Ter vista de rio é uma espécie de código que significa preço alto ou muito alto.
O rio deixou de ser governo de pescadores e passou a ser governo de imobiliárias, que esfregam as mãos por haver tanto rio e tanta vista.
A quinta onde outrora apanhei espargos verdes, amoras de silva e pinhas de pinheiros mansos, é agora o centro de estágios de um clube de futebol e prédios murados modelo condomínio.
Mas, dizia eu, depois desta curta paragem na Wicander, ou na Quinta D.Maria, também ela digna de história, que nesse percurso se encontram quintas.
Logo poucos quilómetros acima, sempre no sentido de Paio Pires, a Quinta do Álamo da Diocese de Setúbal, herdada por testamento do Sr. Willy, (Guilherme Perestrelo d’ Orey ) tratado pelos da quinta e pelos locais por “Senhor Vili “.
a-sul.blogspot.com
O testamento, a quinta, o amor do Sr. Willy aos jardins, ao pomar e aos pássaros, a D. Celeste sua excêntrica mulher, merecem também história à parte. Mas, agora, o meu destino é a Quinta do Algarve, não sem antes, ser forçada a parar numa outra.
A Quinta Grande, foi de um meu tio avó, homem empreendedor que vindo do Ribatejo ainda muito novo, comprou no Seixal uma das suas maiores quintas com uma casa enorme, que terá pertencido a uma ordem religiosa.
A Quinta Grande
O meu tio avó, gostava de agricultura e gabava-se de ter abóboras colossais e outros fenómenos que mais pareciam do Entroncamento. Era um homem doce e vivo que apesar de ter perdido uma perna, continuava a vibrar com a vida, dando grandes gargalhadas que recordo bem, num sorriso emoldurado por um respeitável e impecável bigode de pontas retorcidas. Sentado no canapé de palhinha ria e falava com o que hoje se chama energia positiva. Essa energia transbordava pela casa que cheirava a fruta e bolos.
Os melhores chás da minha infância bebi-os ao domingo na casa dele, preparado e servido com cuidado, à inglesa, pela madrinha Gigi, a sua segunda mulher, que guardava numa lata redonda com uma boneca na tampa, deliciosas bolachas Belinhas para a criançada.
As Belinhas, bolachinhas de chocolate embrulhadas em pratas, davam tanto prazer comer, como desembrulhar. Desembrulhar Belinhas exigia técnica e perícia para não rasgar as pratas, que eram depois exibidas como troféus, muito esticadas, entre as páginas dos livros.
Não tinha planeado, mas estas são paragens que as memórias obrigam.
Passando a Quinta Grande, eis-me finalmente chegada à quinta do Algarve.
Atravessada pela estrada Nacional o meu olhar é de deslumbramento. Olho para as ruínas do lado direito da estrada, e na minha cabeça soltam-se emoções e memórias de um passado longínquo e tão próximo.
Quinta do Algarve
Cresci a ouvir a história e as histórias daquela casa, daquela quinta, povoadas de fantasmas que noite dentro a visitavam e assustavam os empregados e os “locais” que as ouviam.
O dono assassinado a tiro de pistola, teria deixado neste mundo alguma coisa por cumprir e por isso “aparecia”, assim se dizia.
(Esta história vai continuar no próximo mês)
O conteúdo A QUINTA DO ALGARVE, história e histórias aparece primeiro em A Advogada.