A TIPOGRAFIA CLANDESTINA DO SEIXAL
Fazer alguma coisa antes que a memória se perca.
Corria o ano de 1965 e o Seixal era uma terra de fabriqueiros e pescadores onde, quase todos, se conheciam.
Ao som do búzio das fábricas, um verdadeiro formigueiro invadia as ruas, homens e mulheres saiam, uns a pé, outros de bicicleta, muito à pressa, porque o tempo, era pouco.
Ecomuseu Municipal do Seixal
Depois tudo acalmava e a rua voltava à pasmaceira das janelas, entreabertas, onde espreitavam as vizinhas.
Nessa época, recordo um Seixal dividido em dois, com o chamado Bairro Novo a meio.
Junto ao rio, os pescadores, casinhas baixas, tabernas, mercearias, serviços como finanças, câmara, escolas primárias e igreja.
Para os do Bairro Novo, ir ao Seixal era sair, nem que fosse para ir para a escola. Havia no Seixal lojas que o Bairro Novo não tinha. O Seixal tinha lojas de roupa, o Chico Cruz o Sequeira e o Necas, que podiam muito bem justificar uma ida lá. E tinha uma pastelaria de fabrico próprio, a do Sr. Grilo, com as melhores cornucópias e passarinhos jamais fabricados. (opinião insuspeita de criança da época).
Acima do Bairro Novo, as Quintas, com os seus pomares, jardins cuidados, casas apalaçadas rodeadas de mistério e histórias, algumas tão fantásticas, que merecem ser contadas, à parte.
Neste Seixal era difícil alguém de fora, passar despercebido.
Os de fora, vindos do Norte, do Alentejo ou de mais perto, como Palmela, eram muitas vezes tratados pelo lugar de origem. O Palmelão tinha uma mercearia, o vizinho Crato, era assim chamado, por ser da aldeia do Crato, no Alentejo.
Talvez por isso, o 2º andar, do nº 80 da Av. Vasco da Gama (agora dos Metalúrgicos), que ligava o Seixal a Paio Pires, tivesse chamado a atenção.
nº 80 da Av.Vasco da Gama
A casa tinha sido arrendada a um casal discreto, de ar modesto, simpático mas metido consigo. Ele saía de manhã, com uma mala na mão, e atravessava de barco para Lisboa. Talvez trabalhasse numa loja da baixa e levasse na mala a marmita ou talvez num escritório, ou num Ministério. Ninguém sabia, porque aquele casal mistério limitava-se ao bom dia e boa tarde e nada mais.
Ela, era dona de casa. Uma vez, uma vizinha pediu-lhe molas para estender roupa. Muito educada, fechou a porta e apareceu minutos depois, do lado de fora, com as molas na mão.
Uma noite, no silêncio, o Bairro Novo, acordou sobressaltado. Ouviam-se brutais pancadas como se alguma coisa estivesse a ser arrombada à marretada. Depois, gritos, muitos gritos à janela. Acudam, acudam, que estamos a ser assaltados! E os gritos eram do 2º andar do número 80 da minha rua.
O medo não deixou ninguém acudir. Os curiosos que correram para as janelas, foram imediamente “convidados” a fechá-las. Na rua, homens à civil, de gabardine e fato, estavam por todo o lado. Houve quem ainda perguntasse: É política? A resposta foi seca e em tom de ordem: Se calhar é. Feche a janela!
No dia seguinte, nas fábricas, nas lojas, em voz baixa, porque o assunto não era para se falar, não se falava de outra coisa.
No dia seguinte uma terra quase sem carros, teve a visita de muitos carros e homens de chapéu e gabardine. O nº 80 da Av. da Gama, era um lugar de visita. Forrado a cortiça o nº 80 da Av. Vasco da Gama, abrigava uma tipografia clandestina.
Uma notícia do “SÉCULO” dava conta do sucedido: “ tipografia clandestina instalada com os respectivos requisitos para não ser detectada pelos vizinhos…. estavam instalados os “tipógrafos”um casal que vivia na ilegalidade “Depois, os nomes falsos e os verdadeiros, e as ligações a outras casas clandestinas de Amora e Montijo, desmanteladas também nessa noite.
Imagem da notícia: “Um novo sector de actividade comunista acerca de cuja neutralização a polícia dá conta” retirada da Fundação Mário Soares
Eu tinha cinco anos e morava numa casa na mesma Avenida. Apesar da idade, guardei esta história na memória, como se soubesse, que um dia ia escrevê-la. Na minha infância, conheci presos políticos. Vizinhos que desapareciam sem explicação. O Francelino (sapateiro), o Sr. Canal. Não trato o primeiro por Senhor, porque a relação que tinha com as crianças era tão próxima e amiga que o chamávamos pelo nome: Francelino.
Nunca percebi porque é que estes heróis não têm honras de herói. Porque é que os lugares destas histórias não estão no museu da terra, porque é que parece que a memória não importa.
Quem me conhece sabe que não sou do PCP e que não pertenço a uma família com histórias de clandestinos, nada disso. Mas hoje não estou a falar de ideologias, de esquerda, de centro ou de direita, hoje estou a falar de heróis.
Admiro, muito, a coragem dos homens e das mulheres que abraçam causas e ideais, e de forma heroica arriscam a vida, arriscam a liberdade e “não vão à sombra dos abrigos, mas de mãos dadas com os perigos”. Admiro com “A” gigante o “Grande” Mandela , admiro os Católicos perseguidos na Síria, admiro os que antes do 25 de Abril viviam na clandestinidade, como símbolos desse heroísmo. Admiro a coragem de quem faz história, em nome de ideais.
Não é possível ser presente sem guardar a memória do passado. Não é possível desbaratar o álbum de família sob pena de esquecermos quem somos, sob pena de perdermos a identidade.
Tenho medo que um dia destes, o 2º andar do nº 80 da Av.Vasco da Gama, (Av.dos Metalúrgicos) venha a ser mais um alojamento local e que quase ninguém saiba que numa noite de 21 de Abril de 1965 ali se preparou Abril.
Temos um “Museu da Tipografia” que merece visita e que merece divulgar esta história. Talvez este casal de tipógrafos ainda esteja vivo e possa contar a história, na primeira pessoa.
É preciso fazer alguma coisa, antes que a MEMÓRIA SE PERCA!
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