A Advogada

aadvogada.pt · Feb 10, 2019

ABUSO DE CRIANÇAS: SÓ FALAR JÁ DÓI

Há temas tão feios, tão pesados, que o melhor seria nem falar deles, simplesmente esquecer que existem.

Se falo, não é por Voyeurismo jornalístico, é porque é preciso que se saiba que acontecem, que existem e que não podemos fechar os olhos.

De todos os abusos, os piores, são os abusos de crianças.

Abusar de uma criança é roubar-lhe o ser criança, é rasgar-lhe a inocência, é um atentado contra a humanidade.

Cada vez que uma criança é abusada, é a nossa humanidade que é abusada.

Imagem retirada daqui

Há uns anos, numa manhã de escritório, recebi um pedido de consulta de primeira vez.

O assunto seria muito urgente e a minha funcionária insistiu para que “pelo menos falasse com a senhora, que estava muito nervosa”.

Larguei o prazo que estava a fazer, e mandei entrar.

Assim que se sentou, começou convulsivamente a chorar. Percebi que o assunto era muito grave e passou-me tudo pela cabeça, tudo, menos o que realmente era.

Quando começou a conseguir falar, iniciou um relato tão brutal, que até eu, que pensava que já ter imunidade, tive de fazer um esforço para não chorar.

A história envolvia a filha de 17 anos mas começara muitos anos antes….

Imagem retirada daqui

Amélia, vamos chamar-lhe assim, tinha 5 anos quando os pais se separaram. O pai não queria a separação e foi a mãe, quem saiu de casa, com ela.

Passou a estar com o pai aos fins de semana. A partir daí, abriram-se as “portas do inferno”.

Imagem retirada de: Expresso das ilhas

Com cinco anos, só sabia que não queria aqueles toques, aqueles beijos, aquele corpo grande e pesado contra o seu. Não queria, mas não podia dizer nada. Se contasse a alguém, ela e a mãe, seriam mortas, era o que, repetidamente, ouvia a cada abuso.

O medo aumentava a cada fim de semana e o muro de silêncio, era agora, a sua prisão.

Imagem retirada de Medium.com

Amélia contrariou todos os paradigmas de criança e jovem abusada. Comportava-se normalmente em família e na escola estava acima da média.

De insucesso escolar, nem sombra. Era uma aluna excepcional, sem nenhum sinal de alerta, para a mãe ou para os professores.

Reservada, ninguém valorizou o facto de dizer não querer namorar, de recusar comprar prendas ao pai, com a justificação de que este não precisava de nada.

De menina abusada a adolescente violada foi tudo tão rápido, que só recorda a dor e não os anos ou os meses. O homem a quem tinha de chamar pai, tratava-a cada vez com mais brutalidade. A violência verbal fazia parte da galeria de horrores, dizendo-a igual à mãe, os adjectivos gritados eram cruéis e brutais.

SEM NUNCA PERDER A CAPACIDADE DE SONHAR, tinha ideias claras sobre o futuro. Ser boa aluna, tirar um curso, ser independente, ir para longe com a mãe, eram os sonhos que a faziam forte.

Imagem retirada de melhorcomsaude.combrasil

Aquele homem, com quem ia jantar à 5ª feira e que a seguir a violava, um dia não as veria mais, nem elas a ele.

Num lugar secreto do seu quarto, tinha guardados recortes de jornal. Notícias de condenações pelo crime de violação, notícias sobre a importância das provas, notícias sobre o papel da vítima na descoberta da verdade. Um notável arquivo, como diria mais tarde, a directora da P.J. de Setúbal.

Imagem retirada de radioregional.pt

Contudo, tinha optado definitivamente pelo silêncio.

Denunciá-lo à polícia, metê-lo na prisão, era obrigar a mãe a partilhar o inferno, e isso não queria.

Antes deixá-lo impune do que fazer a mãe passar por isso.

Mas, a vida troca as voltas à vontade.

Um dia, depois de mais uma quinta feira de terror, Amélia voltou para casa. Foi a correr tomar banho, como sempre fazia nessas noites.

Em casa, estava a avó, que chegara há uma semanas para férias. Mulher experiente, estranhou aquele comportamento, aquela urgência em correr para o banho depois dos jantares com o pai.

-Mas porquê filha? Porque te sentes tão suja?

Ao fim de anos de silêncio, aquela pergunta fez ruir o muro. Amélia contou, sem uma lágrima, com a dor feita rocha, o seu pesadelo. A avó e a mãe, em choque, decidiram que no dia seguinte iriam procurar ajuda. Sabiam que era preciso agir depressa mas em segredo, para não alertar o agressor.

Depois de as ouvir, a decisão foi unânime. O caminho seria a polícia judiciária. Era terça feira e tínhamos pouco tempo até à próxima visita de Amélia ao “pai” .

A caminho de Setúbal o ambiente era tenso mas de esperança, acreditávamos que o pesadelo estava prestes a terminar.

Imagem retirada de Pensarcontemporaneo.com

Naquela noite de quinta-feira, estava mais nervosa do que era hábito. Tinha aprendido a fingir-se ausente enquanto era violada. Não podia dizer “PAI NÃO!” porque se o fizesse era ainda mais agredida, e tinha como resposta, “Não sou teu pai! Tu e a tua mãe são as duas iguais …”

Só lhe restava estar ali e não estar. Mas aquela noite era diferente, tinha de estar e muito atenta. Qualquer suspeita do agressor seria fatal.

A Polícia iria seguir o carro até ao lugar ermo onde a violação sempre acontecia.

Quando o agressor a obrigasse a passar para o banco traseiro do carro, ela acenderia a luz interior, dizendo procurar um brinco. Esse seria o sinal para a polícia avançar.

Imagem retirada de Youtube.com

As portas do carro abriram-se. Polícia Judiciária! Identifique-se!

Detido em flagrante.

Amélia soube nesse momento, que tinham acabado as noites de inferno.

Contou-me depois, que nessa noite, simbolicamente, não tomou banho!

Estas histórias nunca têm final feliz, nunca acabam bem, mas neste caso, houve um julgamento e uma condenação com pena de prisão efectiva de 12 anos.

O agressor confessou. Um professor de psicologia com quem falei, tentava explicar o aparentemente inexplicável: “Via na filha a mulher que o tinha abandonado e queria vingar-se. “

Durante o julgamento o Juíz perguntou a Amélia, o que sentia em relação ao pai, ela respondeu:

“Senhor Juíz, eu não tenho pai!”

Amélia cumpriu o sonho de se licenciar em Direito e ocupa hoje um lugar de responsabilidade na área da justiça. Encontrei-a feliz, às compras com o namorado num centro comercial. Tive medo de lhe recordar o que não queria. Mas a sorrir deu-me um enorme abraço e apresentou-me: “Aquela advogada, sabes?”.

Infelizmente continuam a existir noites negras de 5ª feira na vida de muitas Amélias. os números são assustadores.

Notícia do Jornal de Notícias de 12 de setembro de 2018

Quando a agressão ocorre na família, só a escola e a sociedade podem ajudar as crianças.

Defendo que a escola deve ter um papel determinante na prevenção com programas ajustados a cada idade. E os professores devem estar despertos para sinais de alerta.

Defendo que as crianças devem aprender cedo que os abusos existem e que elas não são culpadas.

Defendo que as crianças devem aprender cedo que devem contar a um adulto em quem confiem.

E vocês? Já pensaram sobre o tema? O que acham que pode fazer-se?

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