ATÉ QUE A MORTE NÃO SEPARE
Com as rodas da sua cadeira ia ao fim do mundo e não era em sonhos….
Todos os dias quando ao ir para a escola parava para falar com a Joana, a menina da papelaria. Tinha uns olhos muito azuis e liam sempre livros de banda desenhada.
Desenhos de Nádia Joaquim; 2018; marcadores sob/ papel; 7 X 8 cm; Lisboa
Ela tinha cara de anjo, porque não podemos dizer “anja”? Aquele sorriso era muito no seu dia.
Se estava sol marcava uma cruz no caderno de notas. Levava-o como a uma bíblia e ia vendo quantas cruzes de sol. A chuva não contava, escrevia só o que era bom.
O psicólogo falou da importância de ser positivo e isso era ser positivo. Com pernas acordadas seria ainda mais, mas lamechices não eram consigo.
Depois daquele maldito acidente tinha uma nova identidade e os seus dias corriam literalmente “sobre rodas”.
A única que o tratava de igual para igual era mesmo a miúda da papelaria. Corava quando a olhava até ao fundo do azul. Que olhos! que azul! que raiva! Um dia convidava-a para jantar e depois logo se via. Estupidez! Coitada da miúda.
O que seria feito dela agora? Dormia? Via televisão em casa do tio com quem morava? Imaginava-a a lavar o cabelo, que raio de coisa! Até sentia o cheiro a frutos do champó. E depois, partia para outras viagens. A notícia era ela. Que se lixe a Troika. Aquele vestidinho mata. É linda a miúda da papelaria!
Quando crescesse queria ser super-herói. A cura chegava em sonhos e acordado continuava a acreditar. Depois saia, corria e nadava no meio das ondas, comia gelados no verão e bebia cacau no inverno, sempre com ela, tudo com o azul dos seus olhos, que se colavam ao céu, eram o seu prolongamento, eram o céu…
Desenhos de Nádia Joaquim; 2018; marcadores sob/ papel; 7 X 8 cm; Lisboa
Aquela caixinha de “mon cheri”, vá lá saber-se porquê, deviam saber aos seus lábios. Licor de ginja. Tudo cheirava e sabia a ela, mesmo as coisas mais improváveis como os pingos da chuva à saída da escola, podiam ser as suas lágrimas. Não. Não. Ela triste era pô-lo à prova, tinha de arranjar maneira de a animar. Tinha lido sobre o gosto que as mulheres têm por joias, para a alegrar assaltava já uma ourivesaria e trazia de lá o anel mais belo e fininho, fininho como os dedos dela.
Depois secava-lhe as lágrimas e punha-lo no dedo e ela ria outa vez!
E um dia haviam de casar-se. Numa igreja cheia de pétalas de rosa e muitas velas. E um dia, ficariam velhinhos e morreriam de mãos dadas enquanto dormiam. A morte havia de causar estranheza até aparecer quem na perfeição a explicasse:
Eram a vida um do outro, sem o outro a vida espirara em simultâneo, fruto de acaso ou de coisa maior chamada Amor.
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