E NUM SEGUNDO, SE EVOLAM TANTOS ANOS…
O verso é de David Mourão Ferreira, e não há pensamento mais perfeito sobre a morte. Num segundo, sonhos, glórias, medos, tudo o que de bom e mau aconteceu, evapora-se, desaparece, deixando apenas, um rasto de memória em quem fica.
O que separa a vida da morte é uma linha ténue, frágil, como o é a natureza humana.
E, é essa fragilidade de que somos feitos, o que nos catapulta para o melhor e para o pior que há em nós.
Como advogada, aprendi cedo, que essa natureza, a nossa, é tecida de muitos fios de contradição e que sentimentos arrebatadores como a paixão ou ódio, podem transformar “gente normal” em heróis ou em criminosos.
Em 2011, em Aveiro, um avô com a neta ao colo, disparou seis tiros sobre o genro, pai da menina.
Enquanto a filha, a mãe da criança, gritava em desespero para o seu pai “Para! Para!”, a tragédia acontecia.
Correio da manhã
Aquele homem, descrito como cidadão exemplar, num segundo, acabou com uma vida, deixou a neta órfã, condenou-se a um futuro prisional e imagina-se que a uma culpa sem tamanho.
JN.pt
Pela violência das imagens captadas por telemóvel, tive dúvidas em publicá-las. Não que não estejam disponíveis na net para quem as quiser ver, mas o voyeurismo da violência é sempre de evitar.
Depois, pensei que é preciso ver, sentir, ficar triste e desarmado perante o que se passou, para percebermos como de pessoa de bem, respeitável cidadão, se passa a assassino, assim, ao premir de um gatilho.
falemossinceramente.blogspot.com
Seis tiros, seis tiros no pai da neta, no namorado de treze anos da filha, no genro antes querido, seis tiros que estraçalham brutalmente um passado familiar, social, pessoal.
Com eles, ACABOU, ACABOU, ACABOU!!! Gritou o pai, o avô, o cidadão “normal” feito assassino.
De recurso em recurso, com muitos episódios processuais pelo meio, a condenação primeiro a 20 anos de prisão, na primeira instância, acabou por ser reduzida para 16 anos no STJ.
Correio da Manhã
Uns acharão pouco, outros muito, o que sei é que o tempo prisional tem uma densidade diferente do tempo em liberdade.
Sempre que visitei pessoas presas, todos me disseram o mesmo: O tempo aqui dentro, não passa!
https://jornalggn.com.br/cronica/prisao-agendada/
O autor do crime é engenheiro, a filha juiz de direito, o genro morto a tiro, advogado. O conflito girava em torno das Responsabilidades Parentais da criança de três anos e nada faria esperar este desfecho.
Apesar do desmedido conflito processual, tratava-se afinal de gente com capacidade de racionalizar…
Uma acesa discussão numa visita do pai à criança, ordenada por um tribunal, foi a causa próxima. O que ficou para trás terá sido o ressentimento, a zanga, a incompreensão de parte a parte, incapacidade de gerir os conflitos internos e externos gerados pela separação.
Na área das relações familiares, os advogados sabem como é “fácil” passar do amor ao ódio. O terreno emocional é cheio de areias movediças, e é também papel do advogado tentar evitar que os casos se agudizem e passem dos limites.
Sbie.com.br
Racionalizar, relativizar, incutir nos constituintes que o maior bem para cada criança é viver num ambiente pacificado, sugerir psicoterapia se for o caso, é o melhor serviço que pode prestar-se à criança e à família.
Alimentar o litígio em processos desta natureza, onde as matérias são um verdadeiro rastilho, é uma prática, a todos os níveis, profissional e pessoal, muito condenável e que pode trazer consequências trágicas.
O advogado é muitas vezes o grande influenciador de comportamentos. Neste caso o facto de a vítima ser advogado e de a outra parte do conflito ser uma juíza, evidencia o quanto somos frágeis na nossa humanidade, capazes do melhor e do pior, não importa o que fazemos ou de onde vimos.
Á volta com um processo de Responsabilidades Parentais, uma menina ficou órfã de pai.
Um dia, alguém terá de lhe explicar, porque é que o avô matou o pai. Porquê se ambos a amavam tanto?
Num processo onde o interesse da criança é o único fim, haverá paradoxo maior do que condenar uma criança a crescer com o pai morto e o avô preso?
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