PODE A LOUCURA SER CONTAGIOSA?
A propósito de crimes praticados “a dois” que têm inundado os média nas últimas semanas, lembrei um processo, onde como advogada intervim há anos.
Ao contrário destas histórias recentes, verdadeiros casos de polícia, o caso que recordo nada tem de policial. Não há maridos mortos por supostos amantes, nem mães mortas, alegadamente por uma filha e genro ávidos de dinheiro.
O “meu” caso, ao contrário, é um caso de amor maternal.
O que têm então em comum estas histórias? Todas têm um traço que as liga, os autores agiram em coautoria.
Francis Bacon tríptico pintura de impressão na lona
Mas vamos ao “meu” caso. Um pai desesperado procura-me no escritório, porque a mãe das suas filhas, de quem estava separado há anos, estaria, segundo ele, a atentar contra a segurança destas.
A mãe, uma reputada catedrática, vivia com as filhas de seis e nove anos, e com a irmã mais nova.Afirmava andar a ser vítima de ameaças e tentativas de homicídio. Entre outras coisas, relatava o envenenamento do cão, gás letal injectado para o interior da sua residência, perseguições de carro, ameaças de bomba.
A polícia começou por levar a sério estes relatos, que envolviam o hospital, onde as crianças eram levadas, com supostos sintomas de envenenamento.
O alarme de que algo não estaria certo, veio dos vizinhos. Em pleno Inverno, os vizinhos preocupados chamaram o pai. As meninas tinham passado a noite na varanda da casa, à chuva e ao frio, com a mãe e a tia e não seria esta a primeira vez.
Os episódios de gás e noites gélidas eram proporcionais ao grau de alucinação da tia e da mãe das crianças. A polícia encontrou um peluche, em vez de um cão envenenado, os carros perseguidores, eram, afinal, os táxis que circulavam nos percursos da mãe e da tia. De gás e de bomba, nem sinal.
Nunca esqueci os detalhes deste caso, porque me impressionou a alucinação ser comum à mãe e à tia.
Que uma estivesse perturbada, admissível, mas as duas?! Doença psiquiátrica contagiosa?
Nádia (2018) – marcadores sobre papel; 8×6 cm; Lisboa
A pergunta poderia ter como resposta a “loucura a dois”. Um estado patológico que leva o dominante da relação a contagiar o dominado.
No caso das meninas, a tia era contagiada pela mãe alucinada, depois de separadas, a tia apresentou-se curada e a mãe permaneceu doente.
“Folie a deux” significa, literalmente, loucura a dois, e foi formalmente descrito pelos franceses Lasegue e Falret, em 1877.
Há muitos casos descritos na literatura médica que envolvem práticas criminosas consequência desta loucura contagiosa.
Esta loucura pode acontecer entre pessoas que têm relações muito próximas e fortes e vão criando um mundo à parte, surdos às influências externas, na sua cumplicidade doentia.
O desafio de perceber quem é o dominante e o dominado, passa por perícias médicas psiquiátricas, certamente muito complexas. A literatura médica refere que o dominado se cura, quando separado do dominante, enquanto este, permanece afundado na sua loucura.
E voltemos aos casos mediáticos, será que nos crimes, alegadamente, praticados a dois os seus autores são igualmente culpados? Haverá nestas relações a figura do dominante e do dominado? Será que o dominado é tão culpado como o dominante?
Um desafio para a defesa, pode ser, enveredar, ou não, por este caminho. Por vezes, muitas, as perícias são muito importantes e os seus resultados têm mesmo um papel decisivo no processo. Loucura a dois ou dois loucos que se cruzam?
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