Seixal Real
E se num dia de calor tivessem desembarcado no cais do Seixal, um rei, uma rainha e o seu séquito, esperados por barcos engalanados no rio, senhoras enchapeladas, meninas e meninos em cordão a atirar pétalas de rosa, com banda filarmónica, vivas aos reis, tudo envolto num ar de madrepérola?
Será este o princípio de uma história ou será a própria História? O que posso dizer é que a história ou História que vou contar já foi contada por um outro, na primeira pessoa, jornalista, escritor, que a viveu, escreveu e publicou na “Revista Illustrada”.
Procurava eu uma outra coisa, e de repente, a palavra Seixal. Saída do emaranhado de palavras de uma página.
Seixal, é uma palavra que esteja onde estiver, nunca me passará despercebida. Sou uma alma aprisionada por esse amor a uma terra, mesmo que pareça ridícula e piegas, sou assim.
Marginal, Seixal
Comecei à procura do que estava à volta da palavra e, entre surpresa e divertimento, descubro a história dentro da História.
Depois, foi só deixar-me levar por ela, até porque tudo começa numa viagem pelo rio, até ao Seixal.
Deixar-me levar, ir à procura de mais, descobrir personagens fascinantes que foram marcantes na margem sul, e deslumbrar-me, de descoberta em descoberta.
A azul a escrita original, detalhada, fina, de verdadeiro cronista que é também licenciado em direito. O nome fica para depois, primeiro a história.
É mesmo verdade, no dia 5 de Julho de 1892 um veleiro “singra, com o pavilhão içado no mastro grande”, o veleiro é nem mais nem menos do que o iate D. Amélia, o cais de desembarque é o cais da Ponte do Seixal.
https://abiliocoelho.webnode.pt/products/iates-amelia/
Em terra o burburinho é mais que muito. “Um polícia ensina os polícias: – com jeito…com delicadeza….só abrir caminho e mais nada”.
Deliciosamente contada em jeito de reportagem, o jornalista da época, chega primeiro, também de barco, mas a vapor.
Na ponte cheia de gente, está Jaime Costa Pinto, homem descrito como amigo e deputado daquela gente.
O Jaime é “alto, de pera e bigode grisalhos, risonho e prazenteiro sob o seu chapéu claro desabado”. Acena e cumprimenta os que chegam com abraços de amigo. Enquanto se espera para dar vivas aos reis, alguém grita: “Olá Jaime! Viva o Jaime. “
Jayme Arthur da Costa Pinto
Fui procurar. Encontrei este magnifico retrato, do Jaime ou do Jayme, como era escrito, na época. Imagino-o ali, na ponte, a distribuir e receber abraços das gentes do Seixal que pela descrição, o conheciam bem. O Jayme, era o deputado eleito por esse círculo.
Próximo da família real, pertencia ao partido regenerador, como tinha fortuna pessoal, as suas posições políticas eram independentes. Avanço na pesquisa, porque a curiosidade exige.
Encontro um homem multifacetado. A política é paixão, mas não chega para o homem que é também empresário agrícola, jornalista, académico e filantropo, provedor da Casa Pia, fundador de uma associação que protege crianças. Imagino que o Jayme, não tenha tempo a perder, com intrigas palacianas.
Mas, voltemos ao Seixal, à manhã daquele domingo quente.
O ambiente é de festa e de animação, a ponte está cheia de gente e enfeitada de bandeiras. Uma filarmónica muda, espera o grande momento. “Fitas azuis e brancas a tiracolo. São camaristas. Boas caras, boa gente, bons homens”.
“Bravo! Bravo! Isto está lindíssimo”.
Os republicanos e monárquicos trocam piadas e gargalhadas. “Saltam piadas como rolhas de champanhe“. Há abraços, cumprimentos, e entre a euforia da espera e dos reencontros, tempo para apreciar uma beleza da terra, não se sabe se pela boca de um republicano ou de um monárquico: “Bem boa aquela moçoila!.
À medida que o D. Amélia se aproxima, há silêncio, “os do Seixal furam para ver melhor…um da filarmónica bate no bocal da trompa desentupindo-o. O do cornetim experimenta os pistões…bufam os músicos em seco…o chão juncado de pétalas.”
Quando o barco é amarrado ao cais, a banda toca o hino real e gritam-se vivas ao rei, à rainha e à família Real Portuguesa. A excitação é grande.
Pt.fotofolia.com
Mas, o tempo vai passando e do barco real nada. No ar, uma interrogação sobre o que se passa lá dentro.
Nada de mais, formalidades. A entrega das chaves da terra ao Rei, pela mão do Presidente da Câmara.
E, finalmente, o delírio. A Rainha é a primeira a pisar a ponte. O ambiente que já é de torreira, aquece ainda mais.
https://www.google.pt/search?q=rainha d.am%C3%A9lia vela&dcr=0&source=lnms&tbm=isch&sa=X&ved=0ahUKEwiMy6PW8NffAhVO2OAKHbDnB_UQ_AUIDigB&biw=1080&bih=659#imgrc=vlqf-ICRGuG60M:&spf=1546733871381
A Rainha desfila sempre a sorrir, dando beijinhos e abraços às crianças que não param de lhe atirar pétalas. Nem o Rei escapa à chuva de pétalas, o cronista, deliciado com o quadro, remata “E nem o Rei se respeita suas marotas; cobri-lo também de flores…”
Em terra, os carros esperam a comitiva, onde não faltam figuras de relevo como o caricaturista, Rafael Bordalo Pinheiro, quem sabe em busca de inspiração para a próxima obra.
Bordallopinheiro.com
Os Reis, já instalados, estão prestes a seguir viagem. Para onde irá agora a comitiva real? Que ventos e marés os trouxeram ao Seixal?
Coisa pública ou privada? O aparato de comitiva e jornalistas faz crer que é será algo a merecer notícia.
Terão, decerto, à espera um real almoço. O que posso dizer é que a história não acaba aqui, e merece ser contada com ementa e tudo.
Fica prometido!
O conteúdo Seixal Real aparece primeiro em A Advogada.