Seixal Real (parte II)
Para onde vão os reis?
Quem leu a primeira parte da história da chegada por rio, da rainha D. Amélia e do rei D. Carlos ao Seixal, sabe que ficou por contar o que os fez desembarcar no Cais da Ponte no dia 5 de Julho de 1892.
Estava um calor abrasador, depois dos cumprimentos, do desembarque, da chuva de pétalas aos reis, os carros aguardavam para seguir viagem.
Para onde iria tão ilustre comitiva quase chegada a hora de almoço?
papatrilhos.com
O cortejo seguiu pela marginal, tão barulhento e confuso como tinha desembarcado, com cada um a acomodar-se nos carros como podia, porque só os reis tinham lugares marcados.
O nosso jornalista da época, acaba transportado num “carro puxado a três mulas”.
Nesta altura, começa o relato da viagem
O cocheiro dá a ordem:” – Eh mulas, pr ´Arrentela!”
À esquerda casas, muro de quinta, e quando acabam as casas, aparece o estaleiro, à direita: “na praia negra, barcos a pintar, cabos alcatroados de fresco, a secar”.
trasdaponte.blogspot.com
Tudo descrito como é visto. Ao longo do caminho, não faltam acenos, sorrisos, muitas mulheres e crianças, nas janelas, à beira da estrada, em cima de oliveiras.
A Arrentela é como aguarela encantadora, com muita gente a ver o cortejo passar.
“A Arrentela ri, cheia de gente. Gente pelas portas, gente pelas ruas, gente pelas janelas, pelas praças, à sombra das mimosas.”
Afinal, não é todos os dias que um rei e uma rainha se passeiam por ali.
A casa da música, as hortas pitorescas, o matadouro, nada escapa ao olhar do jornalista.
Por fim, avistam-se os eucaliptos.
E ei-la! A FÁBRICA DA ARRENTELA.
arrentelavelha.blogspot.com
A fábrica da Arrentela é o destino. A fábrica da Arrentela é o motivo da vinda dos reis.
Espera-os uma recepção real numa fábrica premiada em Portugal Paris e Vien, agora uma ruína a gritar “socorro!”
Foto tirada em Janeiro de 2019
Os portões abertos de par em par recebem a comitiva.
Frente a frente uma fila de rapazes, outra de raparigas. Impecáveis e alegres. Elas de verde, amarelo, azul, eles de camisa azul, calça escura e chapéu.
O Rei e a Rainha passam entre as filas. Mais flores e hino. Começa a visita à fábrica.
Não é uma inauguração porque há ali fábrica há sessenta anos.
Primeiro fábrica de cobertores, depois fábrica de algodão, por fim fábrica de lanifícios, premiada com medalha de prata, no Porto, Lisboa, Paris e Viena.
histgeo6.blogspot.com (pesquisa na net)
Neste cenário de modernidade, rainha e rei percorrem toda a fábrica e ouvem explicações: espinçadeiras, tiram os nós da lã, cerzideiras vão cerzindo os buraquinhos da fazenda. Agora, a lã a ser lavada em água corrente. A fazenda a ser seca, as “perchas” a levantar-lhe o pelo.
Lãs sujas e lavadas, máquinas a lembrar tipografias, tintureiros com caldeiras fumegantes que lembram “o inferno…O demónio cosendo as almas dos pecadores”. “A casa das máquinas é um cérebro de um gigante, e o manómetro, o fervor da paixão. “
Imagino-me naquela fábrica do séc. XIX e quase oiço as máquinas, sinto o cheiro das tintas, e vejo as cores das amostras, tão perfeita é aquela crónica.
Museu dos lanifícios Covilhã
A visita à fábrica está prestes a terminar. Os reis assinam o livro de honra. Formulam desejos de prosperidade e assinam, El-Rei D. Carlos e por baixo, Rainha D. Amélia.
Pergunto-me por onde andará esse livro, esperando que não tenha tido como destino a destruição. Não me admiraria…
À MESA COM OS REIS
Os relógios já marcam as duas da tarde e já só se pensa em almoçar.
Numa sala ao lado da oficina de tecelagem, toda enfeitada com fazendas da fábrica, que cobrem as paredes de alto a baixo, espera-se pelo momento de começar.
Ao centro da sala, mesa dos reis, ministros e directores, num estrado alto. À volta as outras meses. Flores, frutas, cristais, porcelanas e damasco, compõem o cuidado cenário.
Mesa do Hotel Rainha D. Amélia
Depois do caldo, servem-se, Madeira, Bucelas, Colares.
Acompanhando “tostadas”, magníficas diz Brito Aranha. Mais um jornalista, na mesa dos jornalistas, claro!
Brito Aranha, começou a trabalhar aos 16 anos numa tipografia, tornou-se respeitado jornalista do Diário de Notícias e percebe-se que é bom garfo.
http://tipografos.net/portugal/brito-aranha.html
Primeiro salmão e depois presunto de Chaves, que Brito Aranha “comunga religiosamente” depois da Batalha e dos Jerónimos, o presunto de Chaves é o melhor que Portugal tem, diz ele.
O Timbre Arrentelense anima o ambiente que é cada vez mais vibrante, com criados que vão “enchendo os copos numa roda-viva, retirando e substituindo os pratos”.
Fazem-se brindes, de mesa para mesa. O nosso cronista brinda ao Bordalo na mesa do lado.
Na mesa dos reis, conversa-se e beberica-se. O Rei, sentado ao lado da Condessa de Sabugosa vai cavaqueando com ela.
Casa de Mateus
A seguir ao presunto, fígado de ganso. E depois, punch gelado seguido de peru guarnecido com codornizes.
Intervalo para um brinde ao rei, seguido de espargos com molho.
Entre a geleia de frutas e os doces, pasteis, morangos (com neve, deve ser chantilly) e outras frutas, laranjas , bananas, mais brindes.
Brinda-se ao rei, aos operários, (os melhores entre os melhores, diz o rei) à pátria.
O almoço está prestes a terminar. Douro espumoso e café.
Charutos e cognac.
Quando os reis saem, a festa continua. Agora jornalistas e operários brindam juntos e uns aos outros.
Hurra pelo operário português!
Vozes de jornalistas e de operários : Hurra!
E assim se fez a história desta visita dos reis ao Seixal, num dia de domingo.
Este post teve como fontes a crónica do jornalista Trindade Coelho publicada na Revista Illustrada .
Pesquisa sobre os intervenientes e a história da fábrica.
Recolha de fotografias feitas por consulta via net.
Esperando contribuir para que o que resta da fábrica seja memória museológica e não mais um condomínio.
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