A Advogada

aadvogada.pt · Dec 21, 2018

“SONHOS” de Natal

(Inspirada numa história real)

Era uma vez uma menina pobre, pobre porque ia de Inverno para a escola vestida com roupa quase de Verão, porque tinha grandes olheiras de velha, numa pele branca e transparente que não lhe roubava a cara de menina.

Olhos tristes e alegres ao mesmo tempo, como só os meninos sabem ter. Livros usados, um bocadinho enxovalhados, mas que serviam muitos meses enquanto o apoio escolar não lhe dava os novos.

Gostava de se sentar atrás na última fila. A escola podia ser um lugar muito mau. Ali, ao fundo, ninguém reparava nos seus ténis sem marca, na sua mochila sem princesas, no seu estojo gasto que não combinava com nada. E depois os livros tinham outro nome que tentou em vão apagar. Estavam escritos com uma letra diferente da sua. Era uma letra descuidada, cheia de borrões e riscos. Mesmo assim, um dia, apontaram o dedo à página e disseram “foi a tua mãe, não é a tua letra!”

Nádia (2018) – Marcadores sobre papel

Mas não era verdade, ela tinha-os ido buscar à biblioteca da terra, já escritos, com o irmão mais novo pela mão, porque a mãe estava no hospital e o pai não chegava para tudo.

Eles, os da escola, não sabiam, mas a mãe estava muitas vezes no hospital, porque “a vida lhe tinha pregado uma grande partida”, dizia.

Não conseguia perceber porque é que a vida era assim para a mãe, sempre tão cansada e triste. A culpa seria dum tal HIV, mas porque é que esse HIV e a vida faziam aquilo à mãe que era tão boa?

Depois o irmãozinho de seis anos não gostava de livros, nem de escola e a professora estava sempre a mandar recados que o pai lia, amarrotava e deitava para o chão. Ela abria os papeis amarrotados e estavam lá muitas coisas. Palavras difíceis como híper actividade. Seria uma coisa boa? Mas logo a seguir, falta de cuidados de higiene e deficiente alimentação, isso já não era bom, tinha a certeza.

Um dia, bateram à porta duas senhoras. Percebeu que eram importantes e sérias. Teve pena delas porque via-se que não sabiam rir. Caras pintadas, papeis e caneta na mão. Viram tudo. Abriram as portas todas. Entraram na cozinha, na casa de banho e nos quartos. O pai à entrada da porta, parado, sem dizer nada. Disseram que o gato não podia dormir com eles, que não era bom irmão e irmã estarem no mesmo quarto, que a casa estava fria, que tinha falta de sol.

Andavam à vontade, como se a casa fosse delas. Ficou muito admirada de senhoras importantes fazerem coisas assim. Se não fossem importantes, seriam mal-educadas, pensou.

As senhoras importantes não gostaram de muita coisa, ou melhor, não gostaram de nada. Implicaram muito com as manchas de bolor nas paredes, aquelas manchas que para ela e para o irmão, eram caras de bichos e caras de bonecos, e que o pai fazia desaparecer antes da mãe vir do hospital, mas que apareciam outra vez nos dias de chuva.

Logo que as senhoras importantes saíram, depois de terem estado fechadas na cozinha a falar com o pai, ele desatou a limpar as paredes com tanta força, como se quisesse limpar o mundo.

Achou que elas não gostavam de bichos e bonecos, ou não teriam implicado com as manchas e com o “Riscas”, o gato.

Nádia (2018) – Marcadores sobre papel

O importante é que o Natal estava a chegar e a mãe viria para casa, como tinha acontecido no Natal do ano passado. “Não é bom para os doentes estarem longe da família no Natal”, dissera o médico.

Os médicos sabem tanta coisa. Quando crescesse, talvez fosse médica e com poderes de fada. Mandaria os doentes todos para casa no Natal, e fechava os hospitais, para que nenhum menino ficasse sem mãe, pai, ou irmão no Natal.

Um dia tinha acordado atrasada para ir para a escola e viu que o pai não estava em casa. Lembrou-se que era o dia de levar o vizinho ao médico. Levantou-se a correr, o gato miava aos seus pés, mas não havia leite, nem para ela nem para o gato, nem para o irmão, que dormia enrolado no cobertor e parecia uma prendinha embrulhada.

Deixou-o ficar. O melhor era sair devagarinho, fechar a porta sem barulho e ele não ir à escola. Entretanto o pai havia de chegar e de trazer alguma coisa. Havia dias em que os “biscates” rendiam. A mãe dizia que ele se ajeitava a tudo, e era verdade. Mudar uma torneira a uma vizinha, carregar uns móveis numa mudança, apanhar uma coisa do lixo e ir vender ao ferro velho, levar o vizinho da perna partida ao médico, quando ele não conseguia guiar. Havia dias assim. Apareciam coisas boas em casa, até frango assado e coca-cola, porque também tinham direito…E depois faziam todos uma saúde “Um por todos e todos por um!”.

Ela gostava de estar perto da mãe, sentir aquele calor bom que saia do corpo dela, às vezes, quase sempre adormecia e sonhava com coisas tão diferentes. Viajava montada em arco-íris, levava o gato ao veterinário por causa da pata doente, sentava-se com o irmão na praia a comer gelados dos mais caros e a mãe ria e ria, tão feliz! Mas, os sonhos agora eram sempre os mesmos.

Nádia (2018) – Marcadores sobre papel

A mãe em casa no Natal, uma árvore com muitas luzes e muitas prendas e uma mesa como viu num filme, com velas, peru, frutas coloridas, copos de pé alto, bolos de muitas formas e chocolates. E esse era o melhor sonho, o melhor de todos os sonhos. Quando acordava ainda sentia o cheiro maravilhoso do chocolate e pensava, este ano o Natal vai ser tão bom…

E mesmo sem aquela mesa de ricos, ia ser bom. O pai com os biscates, a mãe em casa, a árvore que o pai sempre arranjava toda enfeitada com luzinhas compradas na loja chinesa há muitos Natais.

Quando voltou da escola, o irmão não estava, o pai não estava, só o “Riscas” com ar assustado, olhava espantado. Daí a nada apareceu uma senhora polícia com outra senhora. Chamaram-lhe “minha querida” e perguntaram-lhe se tinha alguma boneca especial que quisesse levar.

Não estava a perceber nada. Falavam uma com outra com palavras que não entendia mas tentava muito guardar na memória. Quando perguntava pelo irmão e pelo pai, respondiam “está tudo bem”.

As conversas em voz baixa continuavam, mas, ainda assim ouviu claramente: O pai apanhado pela terceira vez sem carta. A mãe no hospital. O de seis anos abandonado. Que irresponsabilidade! Crianças em risco, já sinalizadas. Pai na prisão e mãe no hospital. E agora assim, em cima do Natal termos de andar a bater à porta das casas de acolhimento à procura de vagas. …e depois o gato, o gato… Logo isto tudo em cima do Natal!

Percebeu que as crianças em risco eram ela e o irmão. Que o pai estava preso e que a iam levar para longe de casa.

Acordou a meio da noite, num quarto estranho, com meninas que nunca vira, a dormir nas camas do lado.

Estava cansada e perdida, naquele dia sem fim. Quando entrou naquela casa grande com um portão grande que se fechou com estrondo, o irmão já lá estava. Entretido a brincar numa sala cheia de brinquedos que não eram dele, com uma roupa que não era dele. Quando a viu, veio a correr e perguntou: “o pai?”.

“O pai foi buscar a mãe para passarmos juntos o Natal”.

“E quando chegam? “

“Daqui a nada”, respondeu, enquanto lhe corriam lágrimas cara abaixo, que limpou com a manga do casaco, para ninguém ver.

Nádia (2018) – Marcadores sobre papel

(Esta história é inspirada em factos reais e sempre considerei esta menina de quem sou amiga, uma heroína. Obrigada menina sem nome pela tua coragem. Não te podia dar um nome diferente, para mim, não fazia sentido, porque o teu nome és tu. Se um dia a leres, saberás que é de ti que falo e foste tu que me inspiraste ).

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