TOURADA. SIM, NÃO, OU ….?
Raramente na vida as coisas são a preto e branco. As zonas cinzentas estão lá, para complicar tudo um bocadinho.
E é assim com as touradas.
Uns gostam, outros odeiam. Uns chamam barbaridade ao que outros chamam cultura, mas será assim tão simples?
Para mim ir à tourada aconteceu, era eu pequena, pela mão do meu pai. O meu pai gostava de touradas e eu aprendi a gostar daquela vibração, daquela música, da cor, do ambiente e do salero das praças, que ainda hoje, não me deixa indiferente.
Lembro-me de ver tourear Ricardo Chibanga, de joelhos frente ao Touro, levando o Campo Pequeno ao Clímax.
Farpas blogue
Chibanga, amigo de Eusébio, o primeiro africano a tourear nas praças portuguesas, transformava aqueles momentos em verdadeira mística, e era bonito, especial, mágico.
Depois veio a adolescência, e com ela a defesa da causa dos animais.
Com 12 ou 13 anos, em Sevilha com o meu pai, obrigada a entrar na praça, por não poder ficar sozinha numa cidade desconhecida, recuso ver o espectáculo, e sento-me de costas para a praça.
Em vez da tourada vejo outro espectáculo, a “loucura daquela multidão em êxtase”. Percebo instintivamente que o tema é do domínio das emoções e que não serviria de nada, trocar argumentos com aquelas pessoas.
Com a leitura dos “bichos” de Miguel Torga, dentro de mim selou-se a convicção de adolescente. O touro Miúra e o seu sofrimento fez-me deixar de gostar de touradas e onde antes via beleza e mística, passei a ver dor e sofrimento.
Miúra “Um ser livre e natural, um toiro nado e criado na lezíria ribatejana, de gaiola como um passarinho, condenado a divertir a multidão!” (p. 77)
E aí, surge a grande pergunta, é legítimo o sacrifício de animais para pura diversão dos humanos?
O conto avança ao ritmo alucinante de sofrimento de Miura, que depois de se debater, lutar, esgotar todas as forças, se submete.
“ numa arremetida que parecia ainda de luta e era de submissão, entregou o pescoço vencido ao alívio daquele gume.” (p. 82)
Passei definitivamente a ser uma acérrima defensora do fim das touradas. Publiquei com pouco mais de 15 anos no jornal da terra “Tribuna do Povo” um pequeno artigo com o título “realista”, “Acabemos com a Tauromaquia!”
Teve o efeito de anos mais tarde, ser insultada na rua por um grande apreciador da festa brava, que no Seixal fazia “vacadas”. E ao que penso, foi mesmo esse o único efeito daquele artigo.
Eu que fiquei refém desse conto até hoje, não nego que a música, a cor e a festa não me deixam indiferente e Chibanga, continua a ser uma memória mágica.
Quando falamos de emoções a razão ajuda pouco e proibir por decreto não iria resolver nada. Há territórios, e este é um deles, onde o chamado efeito pedagógico da lei, se viraria contra si próprio.
Continuariam a fazer-se touradas, agora contra a lei e a sacralizar ainda mais, o que já é intocável e sagrado para alguns.
E porque é assim, aqueles que como eu, não gostamos de touradas, temos de esperar que um dia, decerto daqui a muitos anos, talvez já nem estejamos cá para ver, a tourada seja olhada nos estudos de sociologia como coisa do passado.
Então e não podemos fazer nada agora? Podemos. Criminalizar maus tratos a animais, tornar Torga leitura obrigatória, discutir o tema, sem fundamentalismos, nos fóruns onde isso é possível e dar tempo à mudança.
E já agora, digam de vossa justiça!
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