UMA MULHER EXTRAORDINÁRIA
Há nomes que nos marcam, porque nos trazem emoções e transportam para lugares de ideias, para mim, ORIANA é um deles.
A ORIANA que descobri na infância, é o nome de uma Fada que no universo de Sofhia tem asas e o desígnio de tomar conta da floresta e dos seus habitantes mais frágeis. Descobria-a em criança, quando li “Os Contos Exemplares”.
Um dia, deslumbrada com os elogios que tecem à sua beleza, esquece-se da razão de ter asas. Nesse dia, ao esquecer o sentido da sua vida, perdeu todos os poderes. De tropeção em tropeção, só voltou a voar, quando voltou a esquecer-se de si e arriscou a vida, por amor.
Viral agenda
Uma história onde a CONTRADIÇÃO é o tema. O melhor e o pior. A redenção ou o abismo. UMA escolha que é sempre nossa.
Nunca esqueci esta história e a sua lição. Nunca esqueci o nome da fada. E mais tarde, já na adolescência, descobri outra Oriana, também ela com um desígnio, também ela cheia de luz.
A JORNALISTA que escreveu que “o medo é um pecado”
Mulher extraordinária, por amor às suas convicções, Fada para uns e Bruxa para outros, de sobrenome FALLACI, a sua história é a história de hoje.
Facebook Le più belle frasi di Oriana Fallaci
Italiana da inesquecível cidade de Florença (uma cidade onde já estive e voltei e quero eternamente voltar) foi aí que viveu, a primeira parte da sua vida.
Filha de um comunista e de uma anarquista “La Fallaci” como viria a ser conhecida, começou cedo a participar na luta contra o fascismo.
La vita – Oriana Fallaci
Muito cedo, com insuspeito ar de menina, transportava na sua bicicleta panfletos antifascistas (contra o regime de Mussolini), pela cidade e pelos campos. Por esses feitos, foi condecorada no final da guerra, quando tinha apenas catorze anos.
Pinterest Young Oriana Fallaci
Habituada a correr riscos, Oriana, depois de uma passagem pela faculdade de medicina, abraçou o risco de ser repórter de guerra, seguiu os conflitos entre a Índia e o Paquistão, América do Sul e Médio Oriente, sem nunca fazer favores a nenhum dos lados.
O seu ar misterioso e frágil, de olhos cinza azulados e voz sensual, rouca pelos cigarros, em nada condizia com a dureza da sua educação que lhe moldaria o carácter para a vida.
il Punto Notizie
Chorar em público, jamais! Assim lhe ensinara o pai, quando juntamente com um estalo, lhe disse durante um bombardeamento a Florença, na II guerra mundial, que uma rapariga não chora! Tinha catorze anos e foi a última vez que permitiu que a vissem chorar.
https://passeiosnatoscana.com/2016/09/18/a-destruicao-de-florenca-na-ii-guerra-mundial/
Muitas vezes, quis voltar a fazê-lo. Na guerra do Vietname, quando a encostaram a uma parede e pensou que ia ser fuzilada, ou na Cidade do México em 1968, quando cobria o protesto dos estudantes e foi baleada por duas vezes, arrastada e roubada já ferida, deixada viva por engano.
in Vietnam (collezione privata Oriana Fallaci)
Portal vermelho (protesto de 68 )
Sem medo, Oriana enfrentava os poderosos como enfrentava as balas. As suas entrevistas eram provocadoras e desafiantes. Tinham de causar dor ou a verdade ficaria por dizer. O lado obscuro do entrevistado era uma presa a caçar, com a armadilha da pergunta impensável.
“A Muammar Kadhafi, perguntou: “Sabe que é pouco amado?” A Ariel Sharon o significado da palavra “terrorista”, acusando-o de ele próprio ter sido um.
Durante a entrevista a Khomeini chamou ao “xador” que tinha sido obrigada a usar, estúpido trapo medieval, tirando-o a meio, fazendo com que o entrevistado se levantasse e fosse embora.
Instituto Euroarabo
Kissinger, Wałęsa, Willy Brandt, Ali Bhutto, Fellini, Xiaoping, Arafat, Indira Gandhi, Sean Connery, Mário Soares e Álvaro Cunhal foram líderes que passaram pela dura prova do seu microfone.
Escreveu que “O MEDO É UM PECADO”.
E foi sem medo que defendeu que o fundamentalismo islâmico, era uma ameaça igual ao nazismo, e que os políticos europeus não estavam a dar-lhe a devida importância, posição que lhe valeu um processo judicial.
A MULHER que escreveu “não procuro o homem perfeito porque os santos estão mortos”.
Mas esta afirmação não significa desistir de encontrar o “homem da sua vida”.
Implacável na vida pública não era diferente na vida privada. Quando uma relação chegava ao fim, dizia que mandava o “ex “para a Sibéria dos seus afectos .
https://newsmondo.it/anniversario-nascita-oriana-fallaci/cronaca/?refresh_cp
Mulher de paixões arrebatadoras foi com o grego Alexandros que viveu o grande amor. Poeta, preso político, opositor à Junta Militar, era conhecido como o invencível. Para Oriana “O Homem” título do livro que escreveu sobre ele.
Para ela a morte de um amor era como a morte de uma pessoa amada.
A ESCRITORA que escreveu contra o aborto e afirmou que Eva não foi a origem do pecado original mas foi a origem da virtude da desobediência.
Não era suposto que a mulher de esquerda, resistente antifascista, repórter de guerra e jornalista sem medo, que assumia os seus amores sem pudores, viesse num dos seus muitos livros, a escrever contra o aborto e a eutanásia.
Foi por esse livro que na década de oitenta a conheci. Em “carta a um menino que não nasceu”, uma mulher solteira descobre que está grávida num tempo em que a moral condena os filhos fora do casamento. O livro é um monólogo dessa mulher com o filho, que num primeiro momento coloca a hipótese de abortar.
“A minha amiga diz que estou louca em querer conservar-te, ela que está casada abortou quatro vezes em três anos.”
Depois da dúvida, a certeza.
“Na escuridão que te envolve ignoras até que existes. Eu poderia desfazer-me de ti e tu nunca o saberias. Não terias a possibilidade de chegar à conclusão de que se eu te fiz mal ou te dei um prémio. Todavia nada é pior que o nada, filho. O que é verdadeiramente mau é nunca existir”.
O livro tem um fim triste. O menino não chega a nascer, não por opção da mãe, mas por um aborto espontâneo. Há quem diga que o livro é autobiográfico e que Oriana nunca se recompôs da perda.
Para Oriana, desobedecer era virtude, viajar melhor que chegar, lutar melhor que vencer. Porque depois de vencer e chegar, fica o vazio, dizia.
Dizia-se “ateia católica” e nos últimos anos de vida encontrou-se discretamente com Bento XVI, e disse em entrevista que se sentia menos só, quando lia os seus escritos.
Morreu, na sua amada Florença, aos 77 anos. Enterrada ao lado de Alexandros, as campas são jardim de heras que simbolicamente se entrelaçam.
Fontes : Expresso | “Não é de mim que têm medo, é da verdade”
Oriana Fallaci, a jornalista que afrontou os poderosos de gravador em punho-Visão
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