photomaton

pi-lau.blogspot.com · Nov 2, 2017

eu e a minha casa e a minha casa e eu


Cinta Vidal, Urban Evening Painting.




Chega-me num murmúrio, a voz da minha casa.
Tem timbre grave, sotaque acentuado. Carrega nos erres e às vezes esvai-se em onomatopeias.
Ensinei-a a falar comigo e sobretudo a ouvir-me.
Tem mãos firmes, a minha casa. Acolhe-me, ampara-me e também me empurra, quando estou apática.
Temos, uma na outra, vaidade contida e compreensão aprendida.
Somos sonolentas pela pálida luz da manhã e mulheres maduras na mão dos candeeiros bonitos do fim de tarde.
Falamos inglês, francês e pequeno. Mudamos muito de roupa e adoramos sapatos de salto.
Gostamos de artistas de cinema antigas e pinturas do século passado.
Às vezes choramos e traçamos com a água dos olhos uma linha-rio no rosto das paredes.
Às vezes rimos muito e fácil numa abertura de lábios e portas.
A minha casa e eu e eu e a minha casa somos uma espécie de livro inacabado.
Já lhe escrevemos o prefácio mas teimamos em não lhe querer escrever o fim.
O fim é coisa de coisas materiais.
Eu e a minha casa e a minha casa e eu somos imortais dentro da finitude da história da nossa vida.

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